A perda faz parte dos lares: Gerir o luto nas suas equipas

Por Sónia Domingues , 14 de Março de 2022 Profissionais


Os profissionais que trabalham num lar são confrontados com a perda periodicamente. Apesar de a perda ser inerente à condição de trabalhar com idosos, pode desencadear uma sobrecarga emocional e constituir um verdadeiro desafio. Isto acontece sobretudo nos profissionais que estão mais expostos diariamente aos idosos, como os auxiliares e os enfermeiros que tratam dos residentes. 



A perda faz parte dos lares de idosos



Ao longo da evolução da condição humana, através da evolução da medicina e também no que diz respeito às condições de vida, a esperança média de vida foi aumentando. Mas a morte, que geralmente acontecia na própria residência, foi sendo transferida para o hospital ou o lar em que os idosos vivem nos seus últimos anos de vida, por uma questão de conforto e acompanhamento diário. 


Nos lares de idosos, onde o acompanhamento e os cuidados a residentes idosos são diários, a perda naturalmente está muito presente.



Para a família, será emocionalmente melhor saber que o idoso não está sozinho nas últimas horas, e resguardam-se daquele momento temido de encontrar o familiar já falecido.

Muitas vezes, o idoso e a família preferem, em caso de agravamento inevitável da situação clínica, dar indicação ao lar para não o transportar para o hospital, que será um ambiente stressante, agitado e impessoal. O idoso acaba muitas vezes por falecer no ambiente tranquilo e familiar do lar, rodeado do conforto a que está habituado.



As equipas têm reações diversas


Para os profissionais dos lares, este momento é intenso e doloroso, uma vez que criam laços emocionais com os idosos e são confrontados com a fragilidade da vida. Mesmo os cargos de chefia e de administração e gestão de recursos humanos ainda não se encontram plenamente sensibilizados face a esta problemática. Não nos podemos esquecer que, muitas vezes, as mesmas equipas já cuidam do idoso há anos, o que torna mais difícil lidar com a sua perda. 


Supõe-se, erradamente, que os profissionais que lidam mais de perto com a perda estão habituados, e que ela não altera o dia ou o trabalho.



No entanto, os estudos que têm vindo a ser efetuados apresentam um quadro muito diferente. Apesar de estarem sobre-expostos a situações de grande pesar e de sobrecarga emocional, a sociedade tende a relativizar este cenário, e a não levar em consideração este desgaste a que determinadas profissões estão sujeitas. A tendência é de desvalorizar a exposição à morte, porque «faz parte» do ofício. 

A exposição à morte pode levar a uma atitude de auto-reflexão, mas também pode conduzir a estados de tristeza, ansiedade, burnout, impotência e sofrimento psicológico.

Cada profissional vê a perda de forma diferente


No dicionário, a morte é apresentada como a cessação de vida, o fim. Mas a crença, transmitida pelas inúmeras religiões que subsistem nas sociedades, transmite outro tipo de orientação, em como existe algo para além deste fim.

A perda convoca muitos sentimentos negativos, tais como a dor, o medo, ou o desconhecimento. É assumido que as sociedades ocidentais rejeitam a morte e não querem lidar com este acontecimento. Na sociedade moderna, a morte e perda são tabu.


As vivências e as crenças pessoais do profissional terão uma grande influência em como lida com a perda e o luto.



A medicina moderna acabou por levar a uma maior longevidade, criando a perceção ou ilusão de que a vida poderá ser prolongada indefinidamente. A sociedade apenas lida com a morte quando esta ocorre, e sem que esteja minimamente preparada para lidar com ela. 

O mesmo ocorre com os profissionais que lidam com a perda de perto. Nada prepara as equipas para lidar com a morte. Sem contar que cada profissional que trabalha no lar tem uma experiência de vida diferente, assim como as suas crenças e valores lhe darão uma perspetiva única perante a perda.



Consciência tranquila na perda


Para os profissionais que trabalham em lares, lidar com a morte do idoso poderá transcorrer da situação em que ocorreu esta perda. Ou seja, se era uma perda esperada ou se foi repentina, se foi um acontecimento sereno e pacífico ou se houve sofrimento associado. A morte também poderá ser vista como a única forma de acabar com o sofrimento do idoso, sendo encarada como o derradeiro repouso. 


As equipas nos lares podem encontrar conforto no sentimento de consciência tranquila, que tudo fizeram para proporcionar ao idoso a longevidade possível.



Assumem que o idoso faleceu rodeado de paz, tranquilidade, familiaridade e com todos os cuidados médicos e de enfermagem disponíveis. No entanto, este estado de consciência tranquila não é impeditivo de as equipas sentirem a perda, como se de um familiar próximo se tratasse. Se, eventualmente, este profissional está numa fase mais sensível da sua vida, poderá reagir de forma mais emocional à perda do idoso e poderá precisar de algum apoio psicológico para lidar com o luto.



As cinco fases do luto


O luto é o momento que se atravessa quando somos confrontados com uma morte anunciada, ou após a perda de uma pessoa com algum laço afetivo. Os profissionais de lares também poderão passar por este caminho emocional complexo, que pode ser acompanhado pelo diretor técnico ou proprietário do lar. 



Negação

A reação primária à morte ou à perspetiva de perda próxima é declinar este acontecimento. Principalmente quando é uma morte inesperada, o indivíduo tende a negar a realidade. Esta fase poderá demorar minutos, horas ou até dias a passar. A pessoa tende a distanciar-se socialmente.



Raiva

Após a fase da negação, chega a fase da raiva, em que as pessoas cultivam sentimentos negativos de raiva, frustração, tentam encontrar culpados e mostram algumas reações de medo e desespero. Nesta fase, que poderá demorar muito tempo a passar, a pessoa pode recorrer a comportamentos excessivos e a revelar atitudes autodestrutivas e descontrolo das emoções no geral.



Negociação

Esta é a fase em que o indivíduo vai negociando consigo próprio, ou com uma entidade superior em que acredita. Esta fase é mais pronunciada quando se está em confronto com uma situação fatal, mas cujo falecimento ainda não aconteceu. No profissional em lares, esta fase poderá ser mais intensa, uma vez que dele depende o cuidado com o idoso. Confrontado com a doença fatal, este poderá entrar em negociação interna, como se fizer uma determinadas coisas de uma certa maneira, poderá evitar a perda do idoso. 



Depressão

Aqui, o indivíduo já se consciencializou que a morte é ou era inevitável e entra num estado de tristeza profundo, apegando-se ao sentimento de dor causado pela perda. No profissional em lares, esta fase poderá requerer apoio psicológico, dada a frequência com que lida com este acontecimento. As equipas, mais expostas à perda, podem cismar no quão frágil é a vida e acabar por cair num estado de temor e ansiedade constantes que tolhem a capacidade de vivenciar a vida e o trabalho em pleno.



Aceitação

O último estágio do luto. Esta fase significa que a pessoa já compreendeu a perda e compreende a nova realidade formada com a ausência da pessoa falecida. Os sentimentos de raiva e angústia são substituídos por uma sensação de paz interior. O profissional em lares poderá chegar a esta fase com maior facilidade, através do sentimento de dever cumprido, de que tudo foi feito para proporcionar ao idoso uma morte digna e com o mínimo de sofrimento.



Apoie as suas equipas no luto


Os profissionais de lares poderão precisar apoio nas diferentes fases, para lidar com o sentimento da perda e luto, com que se deparam mais vezes do que o comum dos mortais. Também cabe à administração do lar dar espaço a que as equipas expressem a sua dor. A direção dos lares poderá criar um grupo de apoio, em que os profissionais conversem livremente sobre os sentimentos que enfrentam perante a perda do idoso.


Não é vergonha ou sinal de fraqueza incitar o profissional a pedir ajuda a um psicólogo ou psiquiatra, que poderá oferecer um auxílio imprescindível.




O recurso a terapias, como a terapia multidimensional ou terapia cognitivo-comportamental também poderá constituir uma ajuda fundamental para o profissional em luto. É expectável que o profissional em lares, que lida com a perda dos idosos, fique afetado e precise, de alguma forma, de libertar e expressar estes sentimentos. 


Em conclusão, poderá afirmar-se que, mesmo estando habituados a lidar com a morte, os profissionais de lares precisam lidar com os sentimentos provocados com este acontecimento, sob pena de, futuramente, enfrentarem complicações emocionais e psicológicas. À direção do lar de idosos compete que preservar o estado de saúde mental das suas equipas, para que estas assegure, por sua vez, o bem-estar dos idosos residentes.



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