O que os idosos nos contam sobre o amor

Por Catarina Bouca , 02 de Julho de 2019 Idosos


Amar é transversal a todas as idades, embora a nossa sociedade ainda tenda a insistir que o amor romântico é para quem ainda não é idoso. Esta visão obedece à exclusão permanente do idoso de todas as necessidades, exceto as básicas, inerentes aos seres humanos. Em pleno século XXI, o pensamento dominante ainda determina que a população envelhecida não precisa de trabalhar, criar, amar, ter vida sexual, ter controlo sobre as suas finanças, entre outras atividades, isto tudo baseado na falsa premissa de que esta camada populacional está no «fim da linha» e que, por isso mesmo, já não tem as mesmas necessidades do que as pessoas mais novas.

A população envelhecida é vista como não tendo as mesmas necessidades afetivas que as restantes pessoas.


​Apesar dos avanços na medicina nas últimas décadas terem levado a um ritmo acelerado do aumento da esperança média de vida e um número enorme de estudos científicos sobre população envelhecida ter acompanhado esta evolução a fim de fornecer informações-chave para as adaptações que a sociedade está a ser obrigada a fazer perante uma nova realidade demográfica, o pensamento dominante continua por alterar. 


Idosos têm necessidade de amar e podemos aprender muito com eles 

A verdade é que os idosos têm necessidade de amar como qualquer um de nós e também podemos aprender com eles muito sobre o amor em geral, e o romântico em particular, já que as pessoas mais velhas são um valioso recipiente de sabedoria e experiência.

Nos últimos anos, têm surgido um pouco por todo o mundo projetos, de cariz artístico e social, que visam alterar esta visão discriminatória da terceira idade cujo termo em inglês é Ageism, termo esse reconhecido pela Organização Mundial da Saúde.



O amor é universal e transcende a idade...

​Projecto londrino mostra diferença que o amor fez na vida dos idosos.​

O projeto é do fotógrafo Holly Wren, que organizou, em 2016, no Broadgate Tower em Londres, uma exposição de vídeo e fotografia que pretendeu mostrar que as experiências de amor são universais e transcendem qualquer barreira etária. Grande parte dos idosos que integraram a mostra tinha perdido os seus cônjuges e lutava para superar essa perda. As mensagens deles são poderosas tanto quanto as suas histórias:​ 


​​Kathleen, de 86 anos, perdeu o seu parceiro de vida aos 41 anos: ​

«Tu nunca consegues ultrapassar a perda se amares alguém verdadeiramente.  Eu sou antiquada e acho mesmo que todos nós só amamos verdadeiramente uma pessoa em toda a nossa vida. O meu marido morreu nos meus braços. Nunca o esquecerei.

As pessoas dizem que conforme os anos vão passando a dor vai aliviando, mas não é verdade, só piora.»


Harry, de 91 anos, conheceu a sua esposa quando ela tinha 16 anos:

«Gostei do meu casamento. Todos os dias eram felizes. A minha felicidade acabou quando ela morreu. Desde daí, não voltei a ser realmente feliz. Eu e minha mulher adorávamo-nos. Eu estava sempre a dar-lhe carinhos. Quando ela morreu, senti como se ela tivesse colocado um punhal no meu coração que permanece até hoje.

Às vezes, sento-me sozinho a pensar nela.»


ENCONTROS DE CHÁ E SCONES CONTRA A SOLIDÃO

A Contact the Elderly, uma organização inglesa sem fins lucrativos, promove chás mensais de domingo à tarde para idosos com 75 anos ou mais. A organização existe desde 1965 e tem como objetivo juntar seniores que se encontram em situação de solidão, pois têm pouco ou nenhum contacto com a família e os amigos. A Contact the Elderly também integra um grupo de voluntários que estabelecem relações de amizade com os idosos e tornam os encontros regados a chá e scones mais dinâmicos e mais variados em termos etários. Uma boa prática que se tem mantido ao longo do tempo.



O amor também é cuidado e amparo...

Por terras lusas, ouvimos as histórias do residentes na Casa Azul.

O amor foi o tema dominante durante a visita que o Lares Online fez à residência de idosos Casa Azul. Mal chegámos, a diretora técnica, Rafaela Almeida, avisou-nos logo que as mulheres estariam muito mais receptivas a este tipo de assunto do que os homens, «que são mais fechados e calados.»

Entrámos na sala de estar, povoada maioritariamente por mulheres, e a Rafaela apresentou-nos, em primeiro lugar, a Maria Amélia, que já conta com 85 primaveras. Um pouco tímida no início, não tardou em contar-nos a sua história.


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Maria Amélia diz que na doença vê-se o amor que existe.

Foi casada durante 40 anos, hoje é viúva. Não teve filhos, mas esse não é o acontecimento da sua vida que mais lamenta. O facto de ser uma doente oncológica é que lhe traz tristeza, muito embora a doença esteja estancada neste momento. Quando lhe perguntamos o que é o amor, Maria Amélia responde dando um exemplo: «Lembro-me que quando fui operada à mama o meu marido disse-me que não iria deixar de gostar de mim por causa disso. Na doença vê-se muito o amor que existe.»

Por último, conversámos com Maria D’el Carmen, uma senhora de 83 anos, dotada de uma lucidez impressionante. Foi a única das nossas interlocutoras que não falou apenas do amor romântico. Para ela, «amar é sobretudo presença». E contou-nos como abandonou, na companhia dos seus filhos, a sua vida em África para vir dar assistência à cunhada, que se encontrava com uma doença terminal. «Recebia em África cartas dela onde relatava o seu grave estado de saúde. Cada vez que abria uma dessas cartas sentia um aperto no coração, até que um dia decidi vir para Portugal para poder ajudá-la e ao seu lado fiquei até ela falecer. Isto é amar.» 


E, para reforçar a sua convicção sobre o amor, contou-nos ainda: «Esta minha cunhada tinha uma irmã de sangue que vivia muito perto dela mas que pouco a acompanhou. Ela não sendo minha irmã de sangue era como se fosse. O amor é isto».​


Maria D’el Carmen diz que o amor não é só romântico.

Maria D’el Carmen foi casada durante 58 anos. Enviuvou já lá vai algum tempo. Ao puxar a máquina do tempo, relatou-nos que conheceu o marido quando ela tinha sete anos e ele oito. «Nessa altura, já eu lhe dizia que um dia haveríamos de casar». E assim foi: começaram a namorar aos 18 anos para depois casar. Em relação ao amor, Maria D’el Carmen fez ainda uma análise temporal muito interessante: «Vamos recebendo amor de diferentes pessoas ao longo das nossas vidas.

Quando nascemos, temos o amor dos nossos pais. Mais tarde, vem o amor pelo marido e depois pelos filhos. Amor é também preocupação. Lembro-me que quando os meus filhos eram pequenos e, por algum motivo, se atrasavam, lá ia eu para a rua a ver se os via. Também ficava muito preocupada quando o meu marido chegava mais tarde do que era habitual.»

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