A minha mãe veio cá para casa!

Por Susana Pedro , 05 de Novembro de 2018 Longevidade

A minha mãe fez em Janeiro deste ano 81 anos. Até aqui, havia sido sempre uma mulher independente que criou sozinha, após a morte prematura do meu pai, os três filhos. Para além disto, suportou a morte dos meus outros dois irmãos, pelo que só me tem a mim.

A minha mãe só me tem a mim... Aos 81 anos, a minha mãe sofreu um AVC.


Foi tão grande o impacto do sucedido no seu cérebro que não consegue falar e toda a parte direita ficou paralisada. Durante 2 semanas esteve internada num hospital público. Quando a visitava, o que aconteceu todos os dias, ela não me reconhecia a maior parte das vezes. Foi um sofrimento atroz ver a minha mãe naquela condição e não poder fazer mais por ela. ​Mas tinha a esperança em mim de que existiria recuperação.


Pouco tempo e muitos exames depois, os médicos retiraram-me esse sentimento dizendo que, dada a extensão dos danos, a minha mãe,

... aquela mulher independente e corajosa que eu conhecera toda a vida, não mais tornaria ao sítio onde estava desde então.


Um sítio físico, preso a uma cama, e um outro, habitado apenas dentro de si própria, já que se encontrava incapaz de comunicar. E assim tem sido desde então.

Tenho 50 anos. Vivo num pequeno apartamento com o meu marido e a minha filha que terminou a faculdade e, com sorte, conseguiu encontrar um part time.

Há 30 anos que sou assistente operacional numa escola. ​Ganho pouco mais que o ordenado mínimo.


O meu marido pouco mais que eu ganha. E a minha mãe só me tem a mim. A minha mãe veio cá para casa. Só me tem a mim. Procurei apoio na segurança social, um lar que a pudesse acolher, que os nossos ganhos são parcos e ela nunca foi rica e nem tão pouco remediada. Foi vivendo e a pobreza é mais feroz na velhice.

Enquanto aguardo uma ajuda por parte do Estado, a minha mãe está cá em casa. A minha mãe, que tem 81 anos, só me tem a mim e está paralisada. 

Aguardo há mais de um ano e há mais de um ano que sinto ter deixado de viver.


​Fiz do meu corpo um prolongamento para o corpo da minha mãe. Amparo-a em tudo. As refeições têm que ser criteriosamente pensadas e dadas. Com toda a paciência e ternura exigida. É que a minha mãe de 81 anos é, agora, como um bebé.


A medicação cuidadosamente ministrada, sem falhas. O banho dado como se pode e consegue, que os 81 anos da minha mãe habitam num corpo inerte e sem resposta. Que existe só por si e é pesado. Doem-me as costas. Cada músculo meu está massacrado e a cervical queixa-se mais a cada dia que passa. Mas é a minha mãe e só me tem a mim.

Choro muitas vezes fechada no meu quarto, no canto escondido que encontrei para mim.


Porque não merecemos, eu e ela, isto que se abateu sobre as nossas vidas. Porque só tenho 50 anos e ainda quero sentir que estou viva. E sinto-me culpada por isso. Estou exausta do corpo e do espírito. Não sei já o que é dormir uma noite. Não sei o que é fechar a porta de casa e não sentir remorsos de que vou trabalhar mas deveria estar ali, ao lado da minha mãe. Mas preciso de trabalhar. Não posso ficar em casa, que não há sustento que dê para isso.

Durante o dia, a minha filha vai ajudando como pode. Mas sinto que também a estou a privar de uma entrada na vida adulta mais feliz e satisfatória. Mas como haveríamos de conseguir fazer tudo isto? Há um ano que esperamos uma resposta.


O meu cansaço vê-se no meu rosto e na impaciência que sinto em relação aos miúdos n​a escola onde trabalho. ​


Sempre gostei de os ver crescer e de vê-los fazer, já adultos, a sua vida e o meu coração sempre se alegrou quando me vinham dar dois beijos na rua. Sempre me senti um ser especial para eles. Mas agora estou tão cansada que já não tenho alegria em mim e já não tenho paciência para eles. 

Estou exausta e volto para casa, todos os dias, para a minha mãe. Aguardamos uma resposta do Estado.


No outro dia, enquanto dava o jantar à minha mãe, com toda a disponibilidade de tempo que isso me exige, passou na televisão a notícia de que estavam a debater, no Parlamento, o estatuto do cuidador informal. Que Portugal tem uma população envelhecida que cresce mais a cada ano que passa. Que o Estado deve assegurar uma resposta eficiente a quem cuida e a quem é cuidado. Que deve ser reconhecida a importância do papel do cuidador informal na comunidade e desenvolvidos os apoios necessários para que esta função seja feita com maior segurança e qualidade. É, que, sabem, um dos maiores terrores de quem cuida de outrem é saber se está a cuidar bem.​

Que somos quase 1 milhão de cuidadores informais em Portugal. ​Que deve ser pensado o enquadramento legal do estatuto do cuidador informal. Isto não trará de volta a plenitude da existência da minha mãe. Não trará de volta a minha satisfação completa enquanto ser humano. Mas traz uma pequena centelha de esperança. Faz-nos sentir, a nós, cuidadores, que não estamos sozinhos. Que importamos. Que o Estado e nossa comunidade tem empatia por nós.



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