Traumas e quedas: o futuro é a Ortopedia Geriátrica

Por Joana Marques, atualizado a 22 de Junho de 2023 Idosos


Na equação entre envelhecimento e qualidade de vida, é essencial que cuidadores, profissionais de saúde e o setor dos lares e das residências para seniores entendam que a ortopedia geriátrica é uma intervenção cirúrgica e/ou de reabilitação que não tem limite de idade e que pode contribuir para a autonomia e saúde física e psicológica dos idosos.

O processo de envelhecimento é uma inevitabilidade. Os dados mais recentes revelam que cerca de 21% da população portuguesa é considerada idosa (tem 65 ou mais anos) e a esperança média de vida aumentou consideravelmente: 83 anos para as mulheres e 78 anos para os homens. O envelhecimento populacional é também uma consequência dos avanços que se têm registado na área da ortopedia geriátrica. Neste artigo, fique a conhecer de que forma esta especialidade médica pode contribuir para um aumento do bem-estar e felicidade dos idosos!



Envelhecer não é uma sentença de morte


A idade não é uma doença. Cada vez mais, os idosos querem manter-se independentes, seja em contexto domiciliário ou institucional, e envelhecer com qualidade e de forma ativa. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu que um dos pilares do envelhecimento ativo é a saúde, sem a qual os mais velhos não se conseguem auto-realizar.

​As pessoas com mais idade ainda têm um grande contributo a dar à sociedade e, em especial, às famílias, que só têm a beneficiar dos “avós” sábios e experientes com tempo de sobra para ajudar nas tarefas do dia-a-dia e na educação dos netos. Quando tal não é possível, é muito importante que se criem condições para que o envelhecimento não dê origem a casos de depressão, isolamento e falta de autoestima.



Velhos são os trapos, mas… 


Envelhecer não tem que ser uma inevitabilidade dolorosa e deprimente. No entanto, durante o processo de envelhecimento biológico há uma degradação progressiva de todos os sistemas do corpo humano, em particular do aparelho locomotor, que inclui as estruturas ósseas, os músculos, as articulações e os tendões.
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Com a idade, a marcha torna-se mais instável devido a alterações no equilíbrio, nos reflexos e na coordenação. 


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Com o avanço da idade, vão também surgindo fatores de risco que aumentam a probabilidade de ocorrência de traumas ortopédicos. As lesões musculoesqueléticas resultam muitas vezes de problemas de osteoporose, mas também de quedas, que podem levar a fraturas, contusões musculares, luxações e entorses.
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As quedas podem ser causadas pelo progressivo défice visual, auditivo e cognitivo, pela utilização de medicamentos que alteram o estado mental e por doenças degenerativas, que provocam fraqueza articular e muscular e demência.


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​Para um idoso, uma queda pode significar um traumatismo em diversas partes do corpo: cabeça, ombros, punhos, quadris, joelhos ou tornozelos. A fratura mais comum e perigosa de todas é a do colo do fémur, que se não for tratada atempadamente pode levar ao acamamento e consequente morte do paciente.


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Prevenir é mesmo o melhor remédio


Seja em contexto doméstico ou num lar de idosos, é crucial que o idoso esteja em segurança e num ambiente adaptado às suas necessidades, que o proteja de acidentes, quedas e fraturas. Aqui ficam alguns conselhos:
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  • O calçado deve ser fechado e ter solas de borracha;
  • O piso nunca deve estar húmido ou recém encerado;
  • A prática de exercício físico deve ser acompanhada por especialistas habituados a lidar com pessoas mais velhas;
  • Incentivar a utilização de bengalas, muletas ou outros instrumentos de apoio à marcha;
  • Equipe convenientemente a casa do idoso.


​A Ortopedia Geriátrica em Portugal


​Mesmo que se implementem todas as medidas preventivas, não há uma forma de garantir que um idoso nunca sofra de um problema ortopédico, que pode implicar uma intervenção cirúrgica e/ou reabilitativa. É por esta razão que a ortopedia geriátrica é tão importante no prolongamento da qualidade de vida dos mais velhos.

O médico Carlos Evangelista foi pioneiro nesta especialidade e tem sido um dos seus principais dinamizadores, tanto como responsável de unidades de ortopedia geriátrica (Hospital de Sant’Ana e CUF Cascais), como organizador de congressos a nível mundial, nos quais se discutem os avanços, o impacto e o futuro desta área de intervenção.



Nunca é tarde para operar e reabilitar


Para profissionais com a mentalidade de Carlos Evangelista, não existe um prazo de validade para a qualidade de vida. No vocabulário da ortopedia geriátrica não existe a palavra “impossível”. Cada vez mais se vive até idades centenárias e nenhum idoso deve ser considerado um caso perdido. Nesta especialidade, os valores a preservar são os da vida, saúde, autonomia e qualidade, e isto configura uma evolução na mentalidade dominante de que a partir de determinada idade a intervenção simplesmente já não vale a pena.

​Atualmente, as inovações tecnológicas permitem a utilização de materiais inovadores que possibilitam a cimentação de ossos fragilizados pela osteoporose e próteses feitas à medida, que diminuem os riscos cirúrgicos, mesmo que a idade do paciente seja muito avançada.
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Na traumatologia ou na ortopedia geriátrica, o foco tem que ser a rápida recuperação do paciente, para que o idoso seja reintegrado no seu meio ambiente o mais depressa possível.


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Quanto mais rápida e eficaz for a intervenção, maior será a capacidade de recuperação. No entanto, em contexto cirúrgico ou de reabilitação, deve haver uma abordagem multidisciplinar, pois um dos principais desafios é garantir a estabilidade emocional e psicológica do paciente. A aposta é na conjugação de uma equipa médica especializada, cuidados de enfermagem adequados e apoio psicológico.

​O apoio nutricional também é crucial, pois o fornecimento de energia através da alimentação é um dos alicerces da recuperação. A suplementação também pode ser uma ferramenta a considerar, pois pode desacelerar a diminuição progressiva da força e da massa muscular através do reforço da vitamina C e do colagénio.



Otimismo e pensamento positivo


Existe a tese de que operar um idoso com idade muito avançada pode representar um risco ainda maior do que o benefício retirado da cirurgia. Ainda assim, as complicações que decorrem de uma fratura não tratada conduzem a um modo de vida muito limitado e frágil, devido à imobilidade a que o idoso fica submetido. Atrofia muscular, tromboses, problemas cardio-respiratórios, distúrbios urinários, úlceras causadas pela pressão local, depressão e mesmo demência são algumas das consequências de não operar por se considerar que já não vale a pena.

Mesmo quando a operação é um risco sério para a sobrevivência, família, cuidadores e profissionais de saúde devem estimular a ideia de que o idoso está perante um processo de recuperação da sua autonomia e autoconfiança. 

Existem somente duas unidades de ortopedia geriátrica a funcionar com esta filosofia de optimismo, mas a criação de mais destas unidades multidisciplinares poderá contribuir para a rápida recuperação dos idosos, em lugares que, como defende o Dr. Carlos Evangelista, sejam positivos, bonitos e enérgicos, nos quais os idosos se sintam em casa enquanto se restabelecem dos seus traumas ortopédicos.



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