Entrevista a Maria Teresa Matias: «Procuro instituição que aceite a minha cadelinha»

Por Susana Pedro , 01 de Outubro de 2018 Lares e Residências

No dia do idoso, felicitamos a Maria Teresa! Maria Teresa tem 72 anos de pura vontade de viver. Acompanhada pela sua fiel Nikita, sem família e consciente da sua idade, Maria Teresa procurava junto do Lares Online já há alguns anos um lar que a acolhesse. Embora possua sequelas de uma doença que lhe afectou muito a infância, esta senhora ainda é autossuficiente e cuida da sua cadelinha, que é a sua família há 11 anos.

Muitos anos de procura e vários lares contactados através do Lares Online, assim como mais de 30 visitas a lares, deram frutos.

Sou uma senhora de 72 anos de idade , com sequelas na coluna devido a doença que adquiri em criança (Mal de Pott). Estou autónoma e tenho mobilidade, desejo um quarto privado.
Procuro instituição que aceite a minha cadelinha, que é de porte pequeno, saudável e educada.
Maria Teresa Marias 



​Finalmente, Maria Teresa encontrou um lar que a acolhe, e à Nikita

Acompanhámos Maria Teresa durante grande parte deste processo, pelo que gostámos de ver como estava bem instalada.

Entrevista feita no dia 18/07/2018 - é possível ouvi-la no podcast.


Descreva o local onde morava na sua infância

Sanatório da parede. Sanatório de Santana da Parede.


Como é que era?

Era um sanatório de tuberculose, tuberculose óssea. Entrei com um ano, saí com oito.


​Até que ano andou na escola?

Mestrado. Fiz o primeiro ciclo, que se chamava a quarta classe com a minha mãe. Mentira, até à terceira classe. Na 4ª classe, a minha mãe foi para uma escola masculina (antigamente era assim) e eu tive que mudar de professora. Sofri muito com isso. Porque tinha vindo do sanatório, não tinha pai nem mãe.

​Depois cheguei a casa, encontrei um pai e uma mãe. Fiz até à terceira classe, horrorosa, batiam muito, havia muitos castigos. Isto foi nos princípios dos anos 50. Depois fiz a quarta, com outra professora desconhecida. E, depois, fui trabalhar e andei à procura, não tinha mais estudos, fiz só a quarta classe. Fui à procura, foram passando os anos...

Fui à procura de trabalho, e não me davam trabalho porque eu era aleijada. Tinha um perfil não adequado.


​Tive uma grande revolta. Comecei a ficar revoltada e daí comecei, fui para a Nazaré, através de uma pessoa amiga. Fui para trabalhar no Hospital da Nazaré. O que se chama hoje pomposamente «auxiliar de acção médica» e portanto era vigilante. ​E daí comecei a pedir às irmãs... E fiquei interna e pedi às freiras e fui estudar pós-laboral, no Liceu da Nazaré e aí é que fiz os estudos. Até ao... antigamente era o sétimo ano. Pois... 

Dá-se o 25 de Abril, que para muitos foi um horror, para mim foi muito bom. Eu proponho-me a... Ah antes disso tinha-me proposto a educadora de infância. Professora não queria ser porque eu não queria bater em ninguém. Certo?


Na altura...

Exato. E agora ainda de vez em quando...Mas pronto... Eu propus-me a várias escolas: Maria Ulrich, João de Deus, propus-me a várias, mas não tinha perfil, não tinha perfil. Depois proponho-me novamente, e aceitaram-me! Com a entrevista, com conversa, com ... E eu perguntei logo: se é para me chumbarem, digam-me já! «Chumbarem porquê?» Porque eu já me propus e fui sempre chumbada. «Não, senhora! A senhora tem uma cabecinha bem boa para trabalhar com meninos. Até está ótima!»

​E, daí para a frente, fiz o curso. No magistério antigo chamava-se ainda Magistério Primário. Em Benfica! Ainda não havia lá aquela faculdade dos jornalistas...

Portanto, tirei aquele ‘diplomazinho’ e a partir daí comecei a trabalhar com as crianças, educadora de infância.


E fui para uma IPSS. Em Loures. Mas era só creche. Esse tempo ainda hoje não conta para carreira. O tempo que trabalhamos para creches não é considerado Educação. Dos 3 meses aos 3 anos é contado para a Segurança Social, não como Educação. Portanto, a criança não é educada dos três meses aos 3 anos. Na altura era três meses agora são seis não é. Pronto. Eu tenho uma carta, está por aí guardada, mas não sei onde. Eu peço para tempo de carreira, eu peço esse tempo e eles dizem que não. Não é considerado Educação. E pronto.


E agora mais, [a história] é muito comprida. Ah mas ainda falta aí um intervalo, dos 12/13 anos, em que eu fui para o Sanatório do Outão, fazer nova cirurgia.

Tirei enxertos das tíbias e pus na coluna. Pus, não, puseram-me. Deitadinha de costas, amarrada...


​Quando me dizem para ir para a praia, eu detesto praia! Porque o sanatório do Outão é pior que a Parede. Que a Parede tem a marginal e tem a estrada. E Outão não. É como Peniche, está a ver Peniche, em que tem o forte? O Forte do Outão é igualzinho. Portanto o mar bate nas muralhas onde nós estamos. E eu fiquei com aquilo três anos assim. E depois saí e depois é que fui para a Nazaré. Resumidamente é muito grande a história.


Quais as mudanças mais significativas para si, no mundo e nas pessoas, entre hoje e quando era mais nova? O que é que mudou?

A grande mudança para mim foi o 25 de Abril. Não é a política. Entenda-me: eu não era gente. Eu não era considerada. Porque, é assim, as pessoas não gostavam de uma pessoa aleijada, as crianças não iriam gostar de mim. Quando foi precisamente o contrário. Neste momento eu tenho crianças que eduquei 3, 4, 5 anos: doutores, advogados, engenheiros,tudo. Que são meus amigos no Facebook.


Reencontrou toda a gente!

Toda a gente. Porque eles vão pois vão-me topando pelo nome. É... foste minha professora.


​E qual é a sua opinião em relação às redes sociais? Aproxima ou afasta as pessoas?

Aproxima. Mesmo no outro dia estavam a falar muito mal disso e eu disse: Não, desculpem lá. Porque eu conheço e eu continuo a ser amiga de pessoas. Até encontrei um amigo que veio do Brasil aqui e fiquei muito amiga dele. E vinte anos depois eu voltei a encontrá-lo. Através do Facebook. Não é tão... tão contra! Tem prós e contras. Nós também temos é de saber esse equilíbrio.

Se uma pessoa me pede amizade... não tem lá uma foto, não tem lá nada e eu vou aceitar amizade? A quem eu nem sei... E vou ver se tem amigos em comum comigo, porque se não tiver, eu não aceito. Não os conheço. Ponto final.


Fez tudo o que sempre desejou na sua vida?

Sempre. O meu problema... não é problema, agora acho que foi uma virtude que eu tive, foi ser muito teimosa. Porque eu até na mudança de escalão, quando fiz isto, o mestrado, eles continuaram comigo no mesmo escalão. Eu saí em Diário da República aposentada como tal tal com o oitavo escalão. E eu exigi, e porque já lá estavam os créditos na Caixa de Aposentações, que queria ir para um escalão devido. ​Quatro anos! Eu lutei quatro anos para o Estado.

A DECO não podia processá-los. A DECO não processa o Estado, não pode. «E então o que é que eu faço?» «Provedor de Justiça, minha senhora.» Eu fui, Provedor de Justiça. «Doutor, como é que eu faço?». Levei os papéis todos. E ele disse-me «Sim, Senhora, vamos para a frente». Puseram-me logo no mês seguinte na carreira devida. Por isso eu luto sempre por aquilo.

O lar foi quatro anos à procura de um lar. Minha querida, quatro anos!


É muito tempo.

É muito tempo. O Lar ideal. Aparecem ali lares... O hotel não sei das quantas transformado em Lar, claro que aquilo, estão a pedir 3000 euros, quer dizer... As pessoas têm 300 euros de reforma são as que refilam mais. Opah não pode não é, nós também temos de ter um bocadinho de cabeça. Como é que eu posso dar, eu por exemplo estou a dar quase a minha reforma para aqui, mas eu também. Quer dizer, é os últimos ‘anosinhos’ que eu vou estar.

Eu quero estar bem, com a minha cabecinha sossegada ter a minha cadelinha e poder ir à rua quando quero. São opções de vida, não é? E diziam-me «Porque não estás na tua casa?»

«Não, não estou na minha casa porque, quando me der...» Sabe que é, é que eu penso muito... muito... como se diz antecipadamente, na coisa.


​​Eu estou na minha casa sozinha com a minha cadelinha, eu estou melhor. Eu faço o que eu quero. Eu faço o mesmo aqui, mas lá era a minha casa. Mas o problema é assim: dá-me uma coisinha, como eu costumo dizer. Levam-me para o hospital, no 112, não é. Eu chego ao hospital, e não recupero. Então vá para a família.

Como não tenho família, o que é que que a Segurança Social faz: mete-me num lar, o primeiro que tiver vaga. Sem condições, a minha Nikita vai para o canil... Eu penso mais à frente.


A vida é justa para os idosos?

Não. Para mim foi, mas há muitos que não... eu não posso falar só em mim. Nós somos centenas. Então o país está envelhecido como é que é justo... Mas tem a ver com a nossa, atenção, tem a ver com a nossa política porque há países em que o idoso está em primeiro lugar.

Teve momentos de solidão?

Não. Foi uma opção de vida. Nunca namorei, nunca casei, nunca tinha filhos e fui sempre feliz. Tenho é muitos amigos. Não, não tenho muitos. Tenho poucos, mas muito bons.


Há quanto tempo está aqui, no Jardim dos Afetos?

Olha, faz sábado 15 dias só. Parece que já cá estou há um ano. Adaptadíssima.


Refilo muito com os idosos. «Bom dia!» digo, chego ali, quando vou daqui para cima, para ir tomar o pequeno almoço ou para almoçar. Ninguém me responde «Ai é, amanhã não digo bom dia a ninguém, então chego aqui e ninguém me responde.» Estão todos distraídos porque não estão habituados, a continuar a vida faziam. Eu tento. Um ralha com o outro. «Oh, senhor Manuel... É a nossa casa.

Não estamos aqui para estar à luta uns com os outros». «Eu não aguento, ele é um chato e não...» Oh senhora Manuel,temos que olhar para nós... Eu tento, percebe? Mas eu continuo com o que fazia com as crianças, porque eles são novamente crianças, percebe... Há aí uma, uma senhora... Ela é uma santa, a directora... Anda com ela de braço dado. «Como é que eu vou para casa agora. E agora como é que eu vou para casa.» «Não, já vou levá-a». O dia inteiro, o dia inteiro assim...


Falando em crianças, da criança que foi o que é que é que ainda existe em si?

Eu não poderia dizer a mesma, porque eu não tive uma infância feliz. Já viu o que é estar num hospital amarrada. Um coletor de gesso e amarrada. A primeira vez tive 8 anos, a segunda três e a mesma cirurgia são só 15 dias agora.


Veja a diferença. O mesmo tratamento. Mas o que a Medicina evoluiu. Para mim a coisa que mais evoluiu no nosso país... no nosso país, mas se calhar até a nível mundial, não sei, não sei dizer... foi a Medicina. A Educação depois vem assim um bocadinho mais para trás. Cultura... Porque agora temos imensas culturas. Lá está o problema, o problema dos problemas do nosso país: a não aceitação, a xenofobia, o racismo vem das multiculturas. vem que nós não nos aceitamos porque de repente abrem as fronteiras. Pode entrar toda a gente.

Toda a gente entra, tudo muito democraticamente. Mentira. Mentira.


Porque a maioria das pessoas é racista, é xenófobo. Não aceita o homem gostar do homem, e a mulher da mulher. Não aceita. Aqui na aldeia, olhe, da Nikita ir assim [com um lacinho ao pescoço]: «Isto é uma paneleirice!» Quer, eu rio-me tanto. Oh senhor João, «Um cão com laços». Para já não é um cão, é uma cadela. E segundo é que ela é minha e eu gosto.


O que falta às crianças de hoje em dia?

As crianças hoje em dia têm... Não é culpa delas. Têm uns pais muito permissivos...


Falta disciplina?

Não, não é com disciplina. É quando não tem, diz que não tem, não dá e explica melhor à criança porque uma criança que diz a uma mãe «compra-me umas bolachas», e a mãe não tem dinheiro. É uma resposta e está adequada. Só que a mãe mete o cartão de seguida no multibanco e tira uma data de notas. Não explicou à criança. Eu fiz visitas de estudo, quando tinha as crianças, eu fiz visitas de estudo até a bancos para verem porque é que a mãe mete o cartão e sai o dinheiro. Porque a mãe antes disso foi lá pô-lo a guardar. Para os ladrões não roubarem em casa.

A criança não entende muitas coisas, as pessoas é assim «não tenho, a mãe não tem dinheiro». E depois, mete o cartãozinho e saem uma data de notas...

A criança, que já não é parva. Os miúdos do século 21 são diferentes do outro século...


E ainda apanhei os finais do 19, as minhas crianças com 3 anos eram bebés, e agora com 3 anos «Tu és teimosa», «Não é teimosa», «Tu és teimosa», «Não é teimosa, eu, tu também és». Com 3 anos. Tu também és. E portanto, se a pessoa está teimar é porque tem o outro do outro lado a mandar a bola, não é. Agora uma criança com três anos antes não dizia isto, não tinha argumento como agora as crianças têm.

Então e a partir de agora, o que é que a espera?

A mim não vou dizer que me espera a morte, porque a morte a vocês também espera, ponham-se lá na fila... Eu não estou à espera da morte, eu estou à espera de viver dolorosamente, porque, ninguém tem culpa, mas quem me deu esperança de vida, médicos bons especialistas, que eu ia durar só até aos 50, e eu vou nos 72.

É porque eu gosto da vida, é porque eu vivo a vida. Tanto que espero continuar a ser feliz...


Com a sua Nikita.

Ah pois, pois é, é isso que eu espero. Diga-me agora. Perante o que está a ver. Se houvesse mais lares nesta situação, poderia mais alguém ser feliz, não é...


O único desgosto que eu tenho hoje, não tenho mais nenhum. É ela [cadela Nikita] não poder... Se ela está tratada, se está vacinada, se não tem doenças contagiosas, se não há nenhum utente que não... se todos gostam e me pedem para levar a cadelinha lá em cima. E eu não posso, mas porquê?


«Já pediu à doutora?» (Porque eles pensam que a doutora é que manda e pronto) «Não, por lei...», ​«Mas o que é isso da lei?» (Coitadinhos, então eles sabem lá da lei…) «Então quem é? Mas ele é tão bonzinho, o Marcelo». Olha porque ele dá uns abraços, é bonzinho... Pelo amor de Deus! E até nem é ele que faz as leis não é, mas pronto... só tenho essa pena. De ela não poder andar por aí a transitar.

​Mas também outra coisa: não era só aqui, nem ser a doutora... que a doutora até podia dizer que sim, senhor, deixa-a andar aí. É os familiares, tal qual como eu com as crianças os familiares são os piores, os familiares dos utentes. «O quê? Um cão lá? O meu pai lá ao pé de um cão? A minha mãe que até tem uma ferida na perna e não sei das quantas... Vou já fazer queixa! Como faziam quando eu trabalhava, iam ao Ministério da Educação.


Lares podem aceitar que os seus residentes idosos tragam os animais de companhia, mediante certas condições.

Em Portugal, os lares de idosos podem aceitar os animais de estimação dos seus residentes, mediante algumas condições estritas. Mas muitos lares continuam sem aceitar os companheiros dos seus residentes idosos.

Na entrada para um lar de idosos, é criada muita ansiedade para o próprio idoso, pois vai sair do seu meio familiar para outro que lhe é completamente estranho. A ter de deixar também o seu animal de estimação, todo este stress pode levar à solidão e depressão do idoso.

Neste caso, a directora técnica fez os possíveis para que a Nikita e a senhora Maria Teresa fossem bem recebidas.  A direção do lar consultou a Segurança Social, que, através de várias reuniões, permitiu a entrada destas novas residentes no lar.

Quarto individual com acesso à rua

Tudo o que é necessário, e se verifica neste caso, é um quarto individual com acesso directo para a rua e todas as condições de higiene. Nenhum idoso está em contacto com a Nikita sem que o diga claramente, e ela não circula livremente pela casa, apenas frequentando o quarto de Maria Teresa e o espaço exterior.

Mais uma vez, felicitamos Maria Teresa e desejamos-lhe tudo de bom agora que já encontrou um lar que a acolhesse.



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