Entrevista exclusiva à Residência Pratinha: depois da calamidade da Covid-19

Por Daniel Carvalho , 05 de Maio de 2020 Lares e Residências


A 22 de março, os 33 idosos da Residência Pratinha, em Famalicão, foram transferidos para o Hospital Militar do Porto, devido a vários casos da Covid-19 entre funcionários e utentes. O caso tornou-se mediático quando 3 funcionárias ficaram a gerir todas as responsabilidades do lar, nomeadamente o cuidado de todos os idosos.

​Uma das 3 funcionárias foi a Diretora Técnica, Alexandra Vieira, que teve a cortesia de aceitar a entrevista com o objetivo de demonstrar a toda a gente um pouco da realidade de uma instituição que experienciou a Covid-19 como poucos.
Hoje, a Residência Pratinha está novamente em funcionamento, com uma nova cara e com muitas histórias para contar.



Entrevista com a Diretora Técnica da Residência Pratinha


Alexandra, como é que tudo começou? Como é que num espaço de dias tudo muda na Residência Pratinha?


A origem não sabemos, nem conseguimos confirmar de maneira nenhuma. Nunca vamos saber o início do novelo. Pode ter sido um utente que saiu para uma consulta na semana anterior a termos conhecimento dos vários da covid-19 (referindo-se à semana de 7 a 15 de março). Houve vários utentes da Residência Pratinha que tiveram de sair para ir a consultas precisamente nessa semana.

Mas para ser mais precisa: primeiro, soubemos que tínhamos uma funcionária infetada. Foi o primeiro caso. A seguir tive de dar indicações à delegação de saúde de que mais funcionários poderiam estar infetados. Só que na altura falava-se de uma tríade de sintomas (falta de ar, tosse e febre) e a maior parte dos funcionários não tinham estes sintomas. Nós, cumprindo as indicações de isolamento profilático, tivemos de enviar na mesma as funcionárias para casa.
​Nesta altura, ficámos 6 pessoas a cuidar de todos os utentes, mas ainda não sabíamos se tínhamos vários casos de infeção.

Isso só descobrimos posteriormente, a partir de quinta-feira, 19 de março. A partir daí as coisas foram-se desenvolvendo até ao estado que todos sabemos, pronto.

É possível manter a cabeça fria quando de repente tudo está em causa?


Depende do que se refere – adiantou Alexandra entre alguns risos. - No que se refere aos cuidados prestados ao utente, aí não temos outra hipótese se não manter a cabeça fria e agir de acordo com as recomendações.

Sempre com a razão e não com o coração, no sentido de não lhes demonstrarmos  de que algo não estava bem.


Nesse capítulo, tivemos muita cautela para os proteger. Óbvio que eles se foram apercebendo de que alguma coisa se passava, porque estavam sempre a ver as caras das mesmas funcionárias, e estranharam a ausência das restantes. Repare: eles não conseguiram entender muito bem o porquê de deixarem de ter visitas, depois passado um tempo pensavam que a situação do vírus já tinha terminado. Houve também alguns utentes que perceberam claramente o que se estava a passar, principalmente aqueles que faziam as refeições no refeitório, que vestiam a sua roupinha todos os dias. Foi necessário gerir tudo ao mesmo tempo.

Isto que referi foi tudo numa fase que ninguém sabia ainda que estávamos infetados. Estávamos simplesmente a cumprir as indicações dadas como qualquer outra instituição. 


Não deve ter sido uma situação fácil para os próprios idosos...


Nós sempre fomos muito ligadas aos idosos. Eles estavam habituados a um beijo, a um abraço, a um carinho. Depois ter que passar a negar-lhes este tipo de afetos... acabámos por começar a ser maltratadas por eles que recessentiram-se. Ter de estar sempre a dizer «Não pode tocar, não pode estar aí sentada, tem que se afastar mais um bocadinho».

Eles não entenderam o porquê, para eles já tudo tinha passado. (Antes da transição para o hospital.) Estava a ser muito complicado gerir tudo. Eles, por norma, andam sozinhos pela casa, usufruem dos espaços.

Desde sexta-feira que estávamos as 3 a tomar conta dos 27 idosos: ter que alimentá-los, tratar-lhes da higine e ainda gerir estas situações como estava agora a referir.. mais umas horas lá dentro e nós enlouquecíamos.


Chega a um ponto que perdemos a noção do que fazer a seguir. Começámos a deixar tarefas para trás como tratar-lhes da roupa, não dava para tudo. Foi completamente um cenário de guerra.


E como foi o primeiro contacto com as famílias dos idosos infectados? 


Foram 5 estrelas, não temos nada a apontar. Sempre fomos muitos transparentes com todos e eles sempre foram compreensivos connosco. A partir de quinta-feira, 19 de março, começámos a avisar as famílias, mas também não foi nada fácil. Éramos muito poucos, como referi, e entre cuidar dos idosos, fazer telefonemas e gerir cada situação foi um verdadeiro desafio.

Desde quinta-feira, ficámos 6 ou 7 a trabalhar na casa porque não tinhamos sintomas. Na teoria, tínhamos de ir todas para casa, mas naquela altura não tinhamos sintomas e não tínhamos mais ninguém. O que se falava era de existir uma equipa de 2ª linha de profissionais que pudesse substituir os funcionários, mas isso também não é fazível.
Desde fevereiro que estávamos a tentar contratar e não foi possível.

Depois também somos uma estrutura privada, era impensável ter uma equipa suplente em casa e estar-lhes a pagar salários - adianta, para justificar a dificuldade em estabelecer contacto permanente com as famílias.


Os funcionários estiveram ao lado da Residência com vontade de reerguer a instituição ou houve, por exemplo, algumas demissões?


Não, não houve demissões . Aliás, a grande maioria até tinha vontade de ir para a instituição para trabalhar, para nos ajudar. Mas a partir do momento em que tinham de estar em isolamento profilático também não podiam. Independentemente de acusarem positivo ou não, tinham de cumprir na mesma o periodo de quarentena a partir do momento em que voltassem a entrar na instituição e isso impossibilitou-os de nos ajudar. Não é nada fácil.


Com que perceção ficou da atuação dos Orgãos de Comunicação Social? Houve repercussões nas famílias dos idosos?


Vou ser muito sincera: eu já percebi que houve um ‘boom’ muito grande sobre a casa. Mas eu juro que não tenho minima noção da quantidade de notícias, não vi rigorosamente nada. Não sei o que falou cada orgão de comunicação social. Preferi não ver, não faz de todo parte de mim enquanto pessoa e profissional ter essa exposição pública e portanto optei por nem ver nada.

Naqueles dias, entre 19 e 22 de março, foi quase um grito de revolta.
Na reportagem que fiz para a CMTV precisávamos mesmo de uma solução diferente, não podíamos esperar mais para que aparecesse alguém para dar apoio às 3 pessoas que estavam no lar e eu estava e estou grávida.

Nós não sabiamos se estávamos infetadas e portanto também não fazia sentido estar a contratar pessoas de fora, sabendo que nós podíamos estar infetadas também (situação que se verificou posteriormente, à exceção da Alexandra).

Depois, houve também uma situação com a Cruz Vermelha. Eles foram chamados e dirigiram-se até à Residência Pratinha, mas como já havia conhecimento de casos de infeção recusaram-se a entrar.
Nós estávamos exaustas, ver uma ajuda a chegar e depois afinal já não entraram... foi aí que explodi.

Temos uma infraestrutura pequena que não permitiu na altura criar os espaços de isolamento recomendados. Noutras instituições, onde há creche, centro de dia, etc, tudo integrado é possível gerir esse tipo de soluções. No nosso caso, isso não é possível. Portanto quando falei aos orgãos de comunicação social foi mesmo para pedir ajuda em encontrar uma resposta que fosse benéfica tanto para os idosos como para nós profissionais.

O que é certo é que depois disto a Segurança Social acabou por levar os idosos para o hospital militar. Com acordo de cooperação com as Forças Armadas. Nós já estávamos 3 funcionárias sozinhas há 3 dias e só no domingo é que se deu esta transição para o hospital militar.


A partir do momento em que o caso se torna público, quem controlava o lar? As entidades competentes assumiram as rédeas da situação por completo?


A gestão do lar ficou na mesma na nossa responsabilidade, mas sempre com consentimento das autoridades competentes. Estávamos a reportar constantemente o que se passava na Residência Pratinha. Para reabrir o lar tivemos que cumprir as normas para a desinfeção, garantir o quadro de pessoal minímo estabelecido. Tivemos também que alterar algumas dinâmicas: as funcionárias, minhas colegas, estão a residir no lar para minimizar ao máximo a entrada de pessoas. Existem várias equipas e a equipa que está a trabalhar fica a dormir na Residência.


Que apoio foi prestado pelas mais diversas entidades competentes?


Toda a gente tentou reunir esforços para nos ajudar. Dentro do mau isto foi muito positivo. O que nos começou a faltar foi essencialmente o material de proteção individual como as máscaras e foi-nos dada ajuda nesse sentido.

Por exemplo, nós não confeccionamos a comida na instituição, vamos buscar a uma empresa de fora. Naquele momento, a Câmara apoiou-nos e encontrou uma forma de fazer o transporte da comida porque nós, que estávamos na residência, não podíamos sair.


Quanto tempo demora a transitar de uma situação de tragédia pura para começar a pensar em reabrir a instituição?


Infelizmente a recuperação é um bocadinho lenta.
Pelos vistos o vírus demora até sair do organismo, e há ainda alguns utentes a acusar positivo, apesar de estarem assintomáticos.

Estes idosos ainda não conseguem integrar a instituição porque as indicações que existem da DGS obrigam a que o idoso apresente o teste da covid-19 negativo.


Famalicão é conhecido no país por ser uma cidade familiar de entreajuda e ‘amor à terra’. Foi este o segredo de um reerguer tão rápido? 


Houve muita gente a quem eu agradeço do fundo do coração, que nos queriam vir ajudar. A questão é que, a partir daquele momento, qualquer pessoa que entrasse em casa teria de cumprir o periodo de 14 dias em confinamento. Ajuda de terreno foi muito complicado. Depois em termos de alimentos e outros recursos, felizmente não foi preciso porque tinhamos lá tudo, não nos faltou nada.


Qual foi o impacto financeiro do surto na sua instituição?


Essa questão teria de colocar à gerência, eu como Diretora Técnica não consigo fazer uma análise em termos financeiros. Agora claro que neste regresso tivemos de suportar várias despesas adicionais, e é sempre mais complicado: a desinfeção dos espaços fomos nós que assumimos, por exemplo. Enquanto estrutura privada que a Residência Pratinha é, é sempre mais complicado.


Que conselhos daria a um lar que está hoje a passar por uma situação similar àquela que passaram na Residência Pratinha?


Essencialmente ter em conta tudo o que está a ser dito pela DGS: As diretrizes que vão chegando ao lar, tentar seguir ao máximo tudo o que é comunicado. Depois, a utilização do equipamento de proteção individual é imprescindível. Mas lá está, nós estamos a lutar contra uma coisa invisível. Há médicos, há enfermeiros a serem infetados e eles certamente que têm acesso a esse equipamento melhor que ninguém, percebe? Nada é infalível.

Ao fim ao cabo é abraçar todas as medidas de contingência: os idosos permanecerem nos quartos, dividir os tempos das refeições, não aglomerar os utentes. Mas é muito dificil, para o fazer é preciso dar um corte muito drástrico na rotina dos idosos: ficarem sem a família, sem o nosso afeto.

Não há mesmo uma receita. ​Os funcionários saem do serviço e vão para suas casas estar com o marido/mulher, com os filhos. Não conseguimos controlar isso.


Sente que este foi o seu maior desafio? Viver uma tragédia destas na primeira pessoa irá marcar para sempre a sua vida?


Sem dúvida que foi, tanto a nível profissional como pessoal. Nunca na minha vida toda imaginei passar por esta situação. É verdade que fui das primeiras a expôr publicamente o que se estava a passar na Residência Pratinha, mas existiam já muitos lares a passar pelo mesmo. A seguir ao sábado (20 de março) em que eu falo publicamente para tentar mostrar o que se estava a passar nos lares, passou-se só a falar dos lares, de manhã à noite.
Depois disso vimos que havia já muitos lares com idosos que tinham falecido e muitos que estavam infetados.

Isto para dizer que não foi fácil para ninguém e que todos os lares do país passaram por situações muito complicadas.


Que mudanças vê no setor da Geriatria em Portugal? Acha que o pós-pandemia vai revolucionar a atuação dos lares de idosos?


Acho que há coisas que vão mudar para sempre, infelizmente. Isto é um trauma tão grande, não só para nós, mas para toda a sociedade.
Acho que vai ser mesmo dificil baixar a guarda tão cedo, no sentido do contacto, de deixar de usar máscaras. Vai demorar muito tempo até que nós possamos voltar a ter uma realidade dita normal.

Mesmo festejar santos populares, natal, ano novo... Nós, na Residência Pratinha, festejamos todos os anos, todos juntos no mesmo espaço. Não sei, mas acho difícil as pessoas voltarem a juntar-se tão depressa e em especial nos lares, porque os idosos são o elo mais fraco e nós temos de os proteger. 

Nem nós, nem o governo, nem ninguém no universo estava preparado para gerir uma situação destas.
E penso que ainda há muita coisa para descobrir, ainda estou para descobrir como é que eu não fui contaminada.

Não faço ideia, sou sincera. Naquela situação de crise, das 3 colegas que lá ficámos, só eu é que não fiquei infetada. Não dá para explicar. Eu estive com eles todos até ao final, sem saber quem estava ou não estava infetado e tratei de todos, num contacto muito próximo (levar-lhes as refeições, levá-los à ambulância, etc).

Acho que, mesmo assim, Portugal está a trabalhar muito bem, estamos a ser conscientes e pode ser que as coisas voltem ao normal um bocadinho mais cedo.

​Após um dos meses mais complicados da vida destas profissionais a normalidade parece voltar lentamente. Uma luta que é dura, mas que com toda a certeza será travada com sucesso, demore o tempo que demorar. À Residência Pratinha agradecemos a pronta disponibilidade para darem o seu testemunho e ajudarem toda a comunidade de Lares do país com testemunhos na primeira pessoa. 

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