[Entrevista] Lar das Margaridas: atividades que fomentam autonomia

Por Sónia Domingues , 18 de Maio de 2022 Profissionais


Na localidade de Paião, uma freguesia do concelho de Figueira da Foz, existe uma pequena moradia térrea, ensolarada e com um grande jardim, que serve de alojamento a pouco mais de uma dezena de idosos residentes, trata-se do Lar das Margaridas.

A proprietária e diretora técnica, Mónica Guardado, tem formação na área farmacêutica e fez carreira em farmácias hospitalares. Abandonou as farmácias para se dedicar por inteiro a um projeto seu: o Lar das Margaridas, que está aberto há cerca de um ano e meio.



​Oferta diversa de atividades para a autonomia dos residentes idosos


Neste projeto, pensado e idealizado por Mónica Guardado, os idosos são convidados a participar nas mais diversas atividades e a autonomia é estimulada. O tratamento individualizado é a pedra basilar desta estrutura residencial, que não tem lotação completa, por opção da proprietária.


O Lar das Margaridas tem uma ideologia muito própria de cuidados, qual é o objetivo?


Mónica Guardado - O meu grande objetivo é proporcionar cuidados que, neste momento, no mercado de oferta de prestação serviços, são bastante escassos. Ou seja, cuidados extremamente personalizados e individualizados, que proporcionem o máximo de conforto e bem-estar, assim como uma integração no grupo enquanto família, de todos os residentes. Estes cuidados são bastante difíceis de proporcionar, quando se trata de unidades de grande lotação, até porque estamos a atravessar uma fase de falta de mão-de-obra, o que se reflete nestas unidades.

Queremos proporcionar o máximo de conforto e bem-estar, através de serviços e cuidados personalizados e individuais.



Esta unidade tem uma lotação para apenas 18 residentes. Porquê?


Mónica Guardado - O lar tem licenciamento para dezoito residentes, é um lar de pequena dimensão. Mesmo assim, eu não vou preencher todas as vagas, porque já me apercebi que, com a falta de mão-de-obra, não será possível prestar o tipo de cuidados que eu pretendo. Se nos colocarmos no lugar destas pessoas, vamos perceber melhor esta questão. Mesmo no que diz respeito ao acompanhamento, à higiene, aos cuidados mais diretos... para que estes sejam executados com profissionalismo e perfeição, tem que haver tempo. E, para haver tempo, não podemos ter um grande volume de trabalho, porque senão não conseguimos executar as tarefas como desejamos.

Efetivamente, uma casa com um menor número de utentes não fatura tanto como uma que tem uma lotação maior, mas são opções e prioridades. Eu, enquanto profissional de saúde, quero sentir-me realizada nesta missão que eu abracei, e não conseguiria ter essa realização e o retorno se trabalhasse de outra maneira.

Para que o trabalho seja executado com perfeição, tem que haver tempo. Quero sentir-me realizada nos cuidados que prestamos.



Como é o Plano de Atividades do Lar das Margaridas?


Mónica Guardado - Temos umas atividades mais comuns em lares que outras... No nosso Plano de Atividades temos vários ateliers, estimulação sensorial e motora. Semanalmente temos um personal trainer com dois certificados profissionais a trabalhar com  os nossos utentes. Conseguimos também um protocolo com uma escola de Bodyboard, que adquiriu uma cadeira especial, e permite fazer passeios na baixa-mar, com os idosos que já não tem capacidade de fazer a marcha normal na areia. Assim, conseguimos fazer passeios à beira-mar, molhar os pés. Nesta parceria, também temos aulas de surf, e alguns residentes já usufruíram destas aulas. Foi uma manhã bastante atribulada e divertida. Depois temos as atividades mais comuns, como ateliers de culinária, de leitura, escrita, teatro e cinema.

Os idosos participam sempre que querem. Nós só levamos aqueles que querem logo à partida. Mas em conversas uns com os outros, vão tomando conhecimento das atividades. Depois entusiasmam-se também e já querem participar.

Temos atividades comuns e outras menos, como um protocolo com uma escola de bodyboard, aulas de surf e um personal trainer que acompanha de perto os utentes.



Como estimulam a autonomia dos idosos residentes?


Mónica Guardado - Aqui, quer as visitas, quer as saídas dos idosos, são sempre promovidas e estimuladas, porque fazem parte de uma adaptação  e integração saudável do idoso no lar. Temos residentes que saem para passar fim-de-semana com a família, temos residentes que saem para almoçar ou para passear à tarde. Nós estamos abertos para as diferentes situações e para ir de encontro ao conforto quer da família quer do residente. Basta uma comunicação aberta e tentamos apoiar ao máximo a autonomia de cada um.

Estimulamos e promovemos ao máximo as visitas e as saídas dos idosos, em moldes diversos e adaptados a cada residente.



Num lar pequeno, é mais difícil lidar com a morte de um idoso?


Mónica Guardado - Já aconteceu termos uma morte, houve o falecimento do segundo residente que entrou no lar. É complicado gerir a perda, porque, como a prestação de cuidados é muito individualizada, há uma partilha de emoções e sentimentos de parte a parte. É um envolvimento muito grande e todos sentimos a perda. Naturalmente acabamos por nos envolver, quer com questões dos residentes, ou situações das famílias e também dos nossos funcionários. Acabamos por absorver algumas destas situações, e carregamos aqui um fardo algo pesado.

É complicado de gerir, há uma partilha de emoções e sentimentos de parte a parte, todos sentimos a perda quando um idoso parte.



Um ano e meio com apoio Lares Online


O Lar das Margaridas abriu em 2021, e trabalha em parceria com a plataforma Lares Online desde novembro desse ano. Preencheu grande parte das vagas com idosos provenientes do serviço Lares Online, e Mónica Guardado apoia-se muito nos conhecimentos demonstrados pelos colaboradores.


O Lar das Margaridas trabalha com a Lares Online desde o início, como vê a parceria?


Mónica Guardado - Sim, trabalhamos desde o princípio com apoio da Lares Online, visto que é uma parceria que faz todo o sentido. Para além de dar mais visibilidade ao Lar das Margaridas, principalmente ao nível online, temos a possibilidade de termos sempre outros contactos. Globalmente estou muito contente com os resultados da parceria. Todos os contactos que são feitos pelos colaboradores da plataforma têm sido muito úteis, do departamento comercial ao de comunicação, portanto não tenho nada a apontar, estou muito satisfeita.

É uma parceria que faz todo o sentido: visibilidade, contactos de famílias interessadas e dicas profissionais. Estou muito contente!



Que materiais da Lares Online considera mais úteis no seu dia-a-dia?


Mónica Guardado - Eu acompanho muito a página do Facebook da Lares Online, que tem posts e informações muito úteis principalmente às famílias. Mas confesso que este cargo me ocupa muito tempo, e por isso não tenho muita disponibilidade. De qualquer forma, tento sempre aproveitar as dicas e informações direcionadas a profissionais da área, e vou passar a acompanhar mais o blog Lares Online!



As dificuldades sentidas no mercado dos lares


Mónica Guardado, licenciada em Ciências Farmacêuticas e com especialização em Farmacêutica Hospitalar, trabalhou durante duas décadas em farmácias hospitalares. Abandonou a carreira para se dedicar por inteiro ao Lar das Margaridas, que está aberto há cerca de um ano e meio.



Mónica Guardado, proprietária do Lar das Margaridas, na Figueira da Foz


Ser proprietária de um lar, e também diretora técnica, absorve muito do seu tempo?


Mónica Guardado - É verdade, é muito absorvente e acaba por dificultar o tempo em família. Eu tenho uma filha adolescente e ela acaba, de certa maneira, por pagar a fatura com as ausências da mãe. Por vezes são fins-de-semana, urgências que ocorrem durante a noite, feriados, enfim, nós nunca temos a vida planeada como gostaríamos. Mas, a meu ver, é uma coisa que faz parte. Todos nós, todos aqueles que estão neste tipo de cargo, já sabiam de antemão que ia ser assim, e é algo para que temos que estar preparados. É uma função que absorve muito tempo e acabamos por desvalorizar a nossa vida pessoal, mas recompensadora.

É verdade, mas faz parte, temos de estar preparados porque é uma função que absorve muito tempo, e é muito recompensadora.



A equipa de profissionais é essencial para o bom funcionamento do lar. Acompanha de perto o recrutamento?


Mónica Guardado - A parte da seleção dos colaboradores é extremamente importante, sobretudo nesta fase tão difícil que o país atravessa, com falta de mão-de-obra técnica. A formação dos profissionais, e a integração destes na equipa, leva tempo. Por vezes são períodos mais ou menos longos e acabamos por nos dedicar ainda mais à casa. Enquanto diretores técnicos, temos que estar presentes para acompanhar todo o desenvolvimento do trabalho, para fazermos as correções e também os elogios, e dar algum alento aos profissionais para que eles possam trabalhar com dedicação e profissionalismo. Fazer este seguimento e acompanhamento próximo ocupa muito tempo e não é fácil. Requer muito tempo e muita paciência e nós temos que estar sempre disponíveis e temos que ter todas estas qualidades constantes. Se falharmos, pode-se traduzir numa falha grave na equipa.
Temos de estar presentes para acompanhar todo o trabalho, fazer correções e também dar elogios e alento aos profissionais. Um proprietário tem de estar sempre disponível para a equipa.


Acredita que os lares privados deveriam ser apoiados pelo Estado?


Mónica Guardado - Sim, o Estado português tem de se debruçar sobre este assunto, porque efetivamente a nossa população é muito envelhecida e existem poucos incentivos no setor privado. As famílias já não conseguem cuidar dos idosos, e os lares sociais não dão resposta. Para além de que continua a não haver um acompanhamento e fiscalização mais apertado de todos os profissionais, por exemplo ao nível da formação, para que o serviço prestado aos idosos seja de qualidade. Neste momento, como já referi, existe falta de mão-de-obra qualificada para os lares. Também cabe ao Estado pensar e tentar reverter esta situação que atravessamos.

Claro, mas, mais que isso, o Estado precisa de repensar a sua atuação, porque existe um problema de falta de mão-de-obra qualificada, de pessoal com formação para prestar cuidados a idosos.



Continua a ser decisão das famílias integrar o idoso no lar, ou já há idosos que têm essa iniciativa?


Mónica Guardado - No Lar das Margaridas, tenho idosos que entraram nas duas situações. No início, quando as pessoas não têm noção do trabalho que era desenvolvido, efetivamente eram as famílias a procurar o Lar da Margaridas. Ultimamente já tenho recebido residentes que querem mesmo ingressar no Lar das Margaridas. Há variadas razões: porque a amiga já cá está e está satisfeitíssima, porque um conhecido ou familiar tem cá alguém e está muito satisfeito. Neste momento, já tenho este retorno muito positivo.



Mónica Guardado acredita que os idosos devem ter um acompanhamento muito próximo e individualizado e faz questão de transmitir esta forma de trabalhar para todos os funcionários do Lar das Margaridas. 



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