[Entrevista] Casa de Repouso Soares Capela, um lar de afetos

Por Sónia Domingues , 14 de Julho de 2022 Profissionais


Na Casa de Repouso Soares Capela apenas cabem treze residentes idosos, um número reduzido que se reflete nos laços de afeto criados entre os utentes e os funcionários. Marco Soares, juntamente com a sua mãe, dirige este lar com muito afeto e carinho.



Uma casa no centro de Lisboa para todos os idosos



Esta casa de repouso fica situada em pleno centro de Lisboa, em Arroios, e cativa os idosos pelo seu ambiente familiar. Atmosfera esta que se reflete no mobiliário simples e clássico e a luminosidade que preenche os espaços.


Quais os maiores receios das famílias que o visitam?


Marco Soares - Um dos receios que existem na família e no próprio idoso é a imobilização e perda de autonomia, assim como a inadaptação. Nesta Casa, os residentes têm os cuidados todos, a alimentação, os serviços que disponibilizamos e queremos que se sintam bem. Alguns familiares perguntam logo se o idoso pode sair. Eu costumo responder-lhes que isto aqui não é nenhuma prisão. Tem algumas regras, para segurança dos idosos e para conseguirmos gerir o lar, a nível logístico. Mas não é por isso que eles não podem sair e fazer as suas vidas autonomamente. Mesmo passar fins-de-semana fora, eles podem, desde que seja planeado, para lhes prepararmos a medicação e a roupa para levar. Estas instituições não são uma prisão, de maneira alguma, mas precisamos de assegurar que os idosos estão bem. É preciso outro tipo de cuidados que os próprios residentes e a família, por questões laborais, não conseguem dar. Como a alimentação, garantir que têm uma boa higiene, e terem um médico e enfermeiro para quando precisam. Tudo pode ser planeado e executado, estando o idoso em condições para isso.

As famílias temem que os idosos percam a sua autonomia, ou que não possam sair do lar depois de serem admitidos.



Os idosos mais autónomos conseguem conciliar a sua vida no lar com a vida social que tinham?


Marco Soares - Claro! Na casa de repouso, temos pessoas que ainda fazem as suas vidas autónomas. Ainda vão à rua sozinhas, vão visitar amigos, vão almoçar, vão às suas consultas médicas externas, o que é muito gratificante. Na medida do possível, mantemos sempre a máxima autonomia, e vamos acompanhando o dia-a-dia. Eu acredito que há vantagens quando as pessoas entram pelo próprio pé, ainda conscientes, com atividades de vida diária e fazem do lar uma espécie de hotel, se assim o posso chamar. Mas há resistência dos idosos a darem esse passo, porque há sempre medo, se são bem tratados, bem cuidados, se os funcionários os tratam condignamente. Nós queremos é que os idosos possam ter a sua vida independente, como qualquer um de nós.

Claro que sim! Temos residentes a fazer as suas vidas autónomas, que vão à rua sozinhos, visitar amigos, almoçar fora, e é muito gratificante.



Quais os cuidados ao lidar com idosos que sofrem de algum tipo de demência ou problema cognitivo?


Marco Soares - A principal preocupação é a nível da comunicação. Estes idosos muitas vezes não conseguem exprimir os sintomas ou dores que estão a sentir.  A nossa casa tem o apoio de um psicólogo, que nos ajuda muito a «desbravar o caminho» e isso é fundamental nestas situações. Porque eles hoje estão bem, mas basta acontecer uma infeção urinária, que é muito comum na terceira idade. Ou uma doença que vai acentuando e, se não se identifica estes sintomas o quanto antes, torna-se complicado. O psicólogo aqui tem um papel fundamental e ajuda-nos a perceber estes sinais, para encaminharmos o idoso em termos médicos.

Mantemos uma comunicação muito estreita com o psicólogo, e com a restante equipa médica, para que nenhuma necessidade passe despercebida.



Sendo uma unidade familiar, que tem idosos muito autónomos e outros dependentes, como diferenciam as atividades?


Marco Soares - Há determinadas atividades em que nós tentamos que haja interação de todos, mas não é fácil. Obviamente que é mais complicado trabalhar com os idosos com dificuldades cognitivas, mas tentamos diferenciar as atividades de maneira a que eles consigam participar. Os residentes costumam reagir muito positivamente às coisas que remetem para tempos antigos, as músicas, fotografias… Já os autónomos, há alguns que querem e participam, mas não há nada obrigatório. Nós tentamos fazer várias atividades, mas agora, com a questão da pandemia, tem sido mais difícil. Temos feito mais atividades dentro das instalações, mas antes disso tínhamos muitas saídas à praia, à Gulbenkian, e Parque das Nações. Chegamos mesmo a ir a Fátima, mesmo os semi-autónomos. Tentamos fazer atividades para que eles se sintam uma parte importante da sociedade e que estejam ativos.

A interação de todos não é fácil, pelo que diferenciamos as atividades em função de quem consiga participar, incluindo sempre o máximo possível de residentes.



Como lidam com surtos psicóticos ou com algum tipo de violência dos utentes mais descompensados?


Marco Soares - Infelizmente essas situações acontecem. Nós não temos uma cartilha para essas situações, quando elas surgem. Acho que temos que ter bom senso para lidar com estas ocorrências. O nosso trabalho é também isto, é dar o corpo às frustrações destas pessoas e tentar minimizar um bocadinho a sua dor. Felizmente nunca houve necessidade de restringir ninguém. Em determinadas situações mais complicadas, nós tentamos retirar o idoso do espaço. Fazê-lo circular um bocadinho, respirar um pouco, e acho que às vezes é o suficiente. A nível de surtos violentos, tivemos aqui um senhor que estava alteradíssimo, e os funcionários tiveram que se defender. Acabámos por pedir ajuda ao nosso enfermeiro e médico, para encontrar um medicamento para o acalmar, e tentar perceber de onde vinha essa frustração e agitação. Mas, graças a Deus, são situações muito pontuais. Entre ajustes de medicação e ação do psicólogo, conseguimos sempre resolver as situações complicadas.

Temos de ter bom senso para essas ocorrências, aqui nunca restringimos ninguém. Mas acabamos sempre a perceber de onde vem a frustração e agitação, e resolvemos a situação.



Dicas de negócio e muito mais clientes desde 2019, com a Lares Online


Existente desde 1996, a Casa de Repouso Soares Capela é parceira Lares Online desde 2019. Desde essa altura, o apoio personalizado tem dado resultados, angariando semanalmente visitas de famílias interessadas e uma média de 6 novas admissões por ano.


Esta Casa de Repouso já conta com uma vasta história, porquê apostar na parceria com a Lares Online?


Marco Soares - Como a nossa Casa de Repouso já existe há bastante tempo e tem parceria com a Santa Casa da Misericórdia, o conhecimento da existência do lar era feito de boca em boca e ia funcionando. Mas, com o passar dos anos, a faixa etária que procura o lar efetivamente já utiliza as novas tecnologias. Sentimos que estávamos a ficar para trás, a nível de visibilidade. O serviço Lares Online tem sido uma ferramenta muito útil para nós e temos sido abordados por muito mais pessoas através da plataforma. O balanço da parceria é muito positivo e tem corrido sempre muito bem.

Sentimos que estávamos a ficar para trás, e realmente temos sido abordados por muito mais pessoas através da Lares Online.



Quando fala em serviço Lares Online, refere-se à plataforma online?


Marco Soares - Nada disso, é muito mais do que apenas um site. A Lares Online também nos ajuda muito em algumas situações em que nós precisamos de fazer um ajuste, dão-nos dicas e conselhos muito úteis. Na última reunião que tivemos, a Lares Online abordou várias questões pertinentes e que temos de reciclar periodicamente: a receção às famílias, de como devemos proceder, as pessoas virem ao local, falarem conosco, verem os utentes que estão cá, conhecer os funcionários, no sentido de avaliar melhor a instituição... São dicas muito úteis para quem trabalha com famílias e residentes idosos todos os dias, um ótimo apoio.

É mais que isso, são dicas e conselhos, reuniões personalizadas com questões pertinentes periodicamente e muito apoio.



Um ofício de dedicação e entrega


Marco e a mãe gerem mais que um lar familiar, gerem uma casa de família, como deve ser qualquer casa de repouso de pequena dimensão. O afeto e a proximidade são visíveis nas palavras com que este Diretor Técnico fala dos "seus" idosos.
Marco Soares, proprietário da Casa de Repouso Soares Capela, em Lisboa

Gerir um lar não é um ofício qualquer, quais os principais desafios que enfrenta?


Marco Soares - Sim, é um trabalho especial. A minha mãe iniciou esta aventura em 1996 e depois, em 2010, decidi juntar-me nesta caminhada. Por vezes não é fácil, mas tentamos fazer o nosso melhor com o que vamos aprendendo. O principal desafio é que os nossos residentes idosos se sintam em casa, o que é muito complicado. As mudanças são sempre difíceis, principalmente nesta faixa etária. É uma vida inteira com os seus hábitos, com as suas vivências. Sair do seu cantinho e ingressar numa instituição é sempre complicado. Mas nós tentamos que cada idoso se sinta em família, que não sintam tanto essas mudanças, o que por vezes é difícil, mas temos conseguido. 

Acompanhamos de perto a transição dos idosos para o lar, queremos que se sintam em casa, e esse é o nosso principal desafio.



Qual é a melhor parte de trabalhar com os idosos?


Marco Soares - É ouvir as histórias deles, as suas experiências de vida. Às vezes, dava para escrever um livro, qualquer pessoa devia perder um bocadinho de tempo para os ouvir. Ainda há pouco tempo, um senhor que esteve na guerra no Ultramar, que tinha uma patente superior com soldados subordinados, contou-me que muitos desses soldados eram analfabetos e, em plena guerra, no meio da selva, conseguiu ensinar-lhes a ler e a escrever. Não é todos os dias que temos oportunidade de ouvir estas histórias tão extraordinárias. Infelizmente, esse senhor já faleceu, mas deixou connosco um pouco de si.

Todas as histórias de vida de residentes deixam connosco um pouco de si, são experiências que davam para escrever um livro.



Tendo em conta que são poucos os residentes, o laço afetivo que se cria é maior. Como se lida com a morte dos idosos?


Marco Soares - Sim, a perda é uma coisa com que nós vamos aprendendo a lidar ao longo dos tempos. Vamo-nos resguardando da melhor forma que conseguimos. Umas vezes melhor, outras vezes pior, mas é a parte mais complicada deste trabalho. Nós recebemos muito dos idosos, há histórias de vida giríssimas, e vê-los partir é como se se tratasse de um familiar nosso, é a parte que nos custa mais. Isto é uma casa familiar, são todos um bocadinho nossos, e perder um ente querido é muito doloroso. E, de facto, há situações complicadas. Ainda hoje me lembro de muitos residentes que passaram por cá, das conversas, das histórias… Também temos apoio psicológico sempre que necessário. O nosso psicólogo não só auxilia os nossos residentes idosos, como está sempre pronto para nos ajudar. Nós não somos objetos e custa sempre, custa sempre ver partir um dos nossos.

É a parte mais complicada deste trabalho, mas cada um se resguarda como consegue, e temos apoio do nosso psicólogo sempre que necessário.



Quais os desafios futuros para a Casa de Repouso Soares Capela?


Marco Soares - Os desafios são mais burocráticos do que sociais. Hoje em dia, estas instituições estão a ser postas um pouco à parte, pelo Estado. Como somos ERPI's, instituições com fins lucrativos, pensa-se que somos ricos e não precisamos de ajuda e não é bem assim. Quando tentamos evoluir, as portas fecham-se. Com esta conjuntura económica, com estes custos todos associados em pleno centro de Lisboa, torna-se cada vez mais difícil. Para fazer algo novo e melhor para esta população que lutou tanto, não existe qualquer ajuda para os privados.

São desafios mais burocráticos, visto que os lares privados não têm qualquer ajuda e são postos à parte, mesmo quando tentamos evoluir.



​Na Casa de Repouso Soares Capela, apesar de se encontrar em pleno centro da capital do país, respira-se sossego, simplicidade e familiaridade. O afeto, que fica evidenciado pelas palavras de Marco Santos, é transmitido a todos os idosos, que se sentem estimados, valorizados e compreendidos nas suas alegrias, mas também nos seus receios e preocupações. 



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